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Home»Lifestyle»Revista internacional Animals revela maus tratos em fazenda de jumentos no Brasil e perda de 60% desses animais nos últimos 5 anos
Lifestyle

Revista internacional Animals revela maus tratos em fazenda de jumentos no Brasil e perda de 60% desses animais nos últimos 5 anos

Caitlin K. Mathewssetembro 26, 20255 Mins Read
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Publicação “Donkey Slaughter in Brazil: A Regulated Production System or Extractive Model?” é assinada pela Universidade Federal de Alagoas

Entre 2017 e 2022, mais de 60% da população de jumentos no Brasil foi abatida, sobretudo no Nordeste, para atender ao mercado chinês de carne e de pele destinada à produção de ejiao — uma gelatina usada na medicina tradicional chinesa, sem comprovação científica. O dado foi revelado em estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), recentemente publicado na revista científica internacional Animals, reforçando o alerta de que a espécie corre risco de desaparecer.

Intitulado “Donkey Slaughter in Brazil: A Regulated Production System or Extractive Model?”, o documento assinado pelo professor Pierre Barnabé Escodro, doutor em Ciências pela UFAL, menciona a análise feita em 104 jumentos destinados ao abate, no ano de 2019, quando foi constatada a presença de animais em estado nutricional crítico, com inflamações e sinais evidentes de sofrimento. Exames identificaram animais com inflamações sistêmicas, doenças infecciosas e sinais claros de maus-tratos, confirmando que a atividade, além de cruel, representa uma ameaça à saúde pública.

Suas pesquisas concluíram que o sistema de criação de jumentos no Brasil segue um modelo claramente extrativista, voltado apenas à retirada de recursos, sem qualquer investimento em bem-estar ou sustentabilidade. Para o pesquisador, o modelo de abate praticado no Brasil segue uma lógica puramente extrativista: retira-se o máximo possível da natureza, sem levar em conta a taxa de reposição e boas práticas de biossegurança imprescindíveis sobretudo em um país com inegável vocação agrícola.

“Isso não só acelera o desaparecimento da espécie no país, como coloca em xeque a própria viabilidade econômica da atividade. O Brasil precisa decidir se seguirá um caminho científico e ético ou se continuará a reproduzir um ciclo de crueldade e exploração insustentável”, sentencia Escodro.

Resistência: do abandono ao acolhimento – Apesar do cenário crítico, iniciativas de resgate e adoção oferecem alternativas reais. Entre 2022 e 2025, o Grupo de Pesquisa e Extensão em Equídeos e Saúde Integrativa (GRUPEQUI/UFAL) resgatou 30 animais em situação de risco no Nordeste, e 57% deles já encontraram novos lares.

Na linha de frente internacional, a organização britânica The Donkey Sanctuary atua no Brasil com campanhas contra o abate, incentivo à adoção responsável e conscientização de tomadores de decisão para garantir que os jumentos, símbolos da resistência e da cultura nordestina, possam ter preservada sua dignidade.

Além disso, os projetos de acolhimento têm mostrado impacto direto na vida de pequenos agricultores e famílias da região. Muitos jumentos resgatados passaram a ser adotados como animais de companhia ou auxiliares em atividades rurais sustentáveis, fortalecendo vínculos comunitários e resgatando o papel histórico desses animais no semiárido. Essas experiências comprovam que políticas públicas de proteção, aliadas a iniciativas sociais e acadêmicas, podem construir alternativas viáveis e éticas ao abate massivo.

Chamado urgente – Para a doutora Patricia Tatemoto, PhD em Medicina Veterinária e porta-voz da The Donkey Sanctuary no Brasil, o país não pode permitir que um animal tão simbólico desapareça por pressão de mercados externos. “Estamos diante de um cenário alarmante de negacionismo da ciência. O jumento é parte da identidade brasileira e não pode ser tratado como mero subproduto de exportação. É preciso que o Brasil assuma sua responsabilidade ética e cultural de suspender imediatamente o abate”, afirma.

Segundo ela, o comércio de pele não traz benefícios sustentáveis para as comunidades locais. “Essa atividade promove risco reputacional ao agronegócio brasileiro, esvazia o semiárido de um dos seus símbolos mais fortes e coloca em risco a saúde pública. A alternativa está nas políticas de proteção, e soluções sustentáveis apontadas por estudos internacionais, que já têm mostrado resultados concretos em parceria com universidades e organizações sociais”, completa.

Enquanto o abate em massa continua, os pesquisadores tentam convencer os poderes Executivo e Legislativo para que a proibição do abate de jumentos vire lei no Brasil. Segundo um manifesto de 12 cientistas PhDs em diversas áreas do conhecimento, a justificativa econômica não sustenta a atividade extrativa hoje praticada, pois a atividade é cientificamente demonstrada como custo-proibitiva.

“Os jumentos sofrem em todas as fases do comércio de peles, desde a captura e transporte até o abate, sendo frequentemente mortos por trabalhadores não treinados com métodos tecnicamente não validados, o que causa sofrimento intenso. Além do sofrimento físico, esses animais têm danos psicológicos, muitas vezes resultando em doenças ou incapacidades”, relata o estudo da UFAL. “O abandono e as condições precárias em que os animais foram encontrados refletem todo o sofrimento a que a espécie tem sido submetida nos últimos anos, particularmente na região Nordeste, devido ao comércio descontrolado de peles”, conclui Pierre Escodro.

Sobre a The Donkey Sanctuary – A The Donkey Sanctuary é uma organização internacional de proteção animal dedicada a melhorar a vida de jumentos e mulas em todo o mundo, promovendo assim o desenvolvimento social e ambiental nas regiões onde vivem. No Brasil, sua missão é garantir o bem-estar e a sobrevivência do jumento nordestino – uma espécie única adaptada ao semiárido. Para combater a expansão do abate e da exportação desses animais, a ONG atua por meio de campanhas de conscientização, incidência política e apoio à pesquisa científica que ofereça alternativas sustentáveis.

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