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Home»Saúde»Menopausa, hormônios e longevidade: por que o tema ganhou novo espaço entre mulheres
Saúde

Menopausa, hormônios e longevidade: por que o tema ganhou novo espaço entre mulheres

Caitlin K. Mathewsmaio 14, 20265 Mins Read
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A médica Sarina Occhipinti explica como o aumento da procura por terapias hormonais reflete mudanças na forma de discutir envelhecimento feminino, bem-estar e qualidade de vida

A menopausa deixou de ser um tema restrito aos consultórios médicos e passou a ocupar espaço na televisão, nas redes sociais e nas conversas entre mulheres de diferentes gerações. Nos últimos anos, relatos públicos de nomes como Adriane Galisteu, Angélica e Claudia Raia contribuíram para ampliar o debate sobre reposição hormonal, qualidade de vida e envelhecimento feminino.

Ao compartilhar experiências pessoais com sintomas, tratamentos e mudanças no corpo, essas figuras ajudaram a reduzir o tabu em torno de uma fase que, por décadas, foi tratada em silêncio.

A maior visibilidade, no entanto, também trouxe novos desafios. Com a popularização do assunto, cresce o número de mulheres que chegam aos consultórios em busca de soluções semelhantes às adotadas por celebridades, muitas vezes sem considerar que os tratamentos hormonais dependem de avaliação clínica individualizada e acompanhamento médico contínuo.

Para a médica Sarina Occhipinti, o impacto dessa exposição é ambivalente. “Ajuda e atrapalha ao mesmo tempo. Quebrar o silêncio em torno da menopausa é avanço real. Durante décadas, as mulheres envelheceram em segredo, achando que estavam enlouquecendo sozinhas. Quando uma apresentadora de TV fala abertamente sobre reposição hormonal, ela autoriza milhões de mulheres a procurarem ajuda. Isso é inestimável”, explica.

Segundo a especialista, o problema surge quando experiências pessoais passam a ser interpretadas como modelos universais. “O problema é o que vem depois. A paciente sai do programa, chega no consultório e pede o protocolo da Galisteu, o implante da Claudia Raia, a fórmula da Angélica. E aqui mora o equívoco. Terapia hormonal não é roupa de prateleira”, afirma.

Na prática clínica, um dos pontos que mais chamam atenção, segundo a médica, é o tempo que muitas mulheres levam para procurar atendimento. ” que mais me marca é o tempo perdido. A maioria das mulheres chega ao consultório depois de anos sofrendo em silêncio”, destaca.

Ela diz que sintomas como cansaço persistente, insônia, irritabilidade, queda de libido e ganho de peso ainda costumam ser tratados como consequências inevitáveis do envelhecimento. “A menopausa não é o fim da vitalidade feminina. É uma transição endócrina que pode e deve ser conduzida com ciência”, detalha.

O aumento do interesse por terapias hormonais também acompanha relatos de melhora no humor, no desempenho físico e na disposição. Ainda assim, Sarina reforça que os resultados variam de acordo com o histórico clínico, os exames e as necessidades de cada paciente: “Quando a indicação é correta e a dose é individualizada, a melhora costuma ser consistente.”

Ela alerta, porém, para uma percepção distorcida criada pelas redes sociais e pelo consumo acelerado de relatos pessoais. “Existe uma armadilha nos relatos de celebridades. A gente vê o ‘antes e depois’, mas não vê o que aconteceu nos bastidores. Cada mulher responde de forma diferente à mesma molécula”, observa.

O debate ganha ainda mais repercussão quando entram em cena os implantes hormonais, frequentemente associados a celebridades e influenciadoras digitais, como Virgínia Fonseca. Nesse contexto, a discussão passa a envolver não apenas bem-estar e qualidade de vida, mas também limites médicos e segurança terapêutica.

“A diferença é mais profunda do que parece. Não é só ‘creme versus chip’. São filosofias terapêuticas distintas”, esclarece. Enquanto o gel permite ajustes ao longo do tratamento, o implante libera hormônios por meses, sem possibilidade de reversão imediata.

“O problema não é o implante existir, mas a forma como vem sendo usado no Brasil. Frequentemente com doses acima do fisiológico e sem possibilidade de retirada rápida se algo der errado”, acrescenta.

Outro ponto de atenção é o uso de substâncias como testosterona e gestrinona. Segundo a médica, existem indicações específicas para determinados casos, mas o uso indiscriminado pode trazer riscos. “Testosterona em mulheres tem indicação bem delimitada. Não é tratamento para ganho de massa muscular ou estética”, pontua.

Ela também cita a gestrinona, substância que ganhou visibilidade recente nas redes sociais. “Seu uso para fins estéticos ou de performance não tem aprovação da Anvisa e não possui estudos de segurança a longo prazo nessa via”, ressalta.

Para Sarina, a influência de figuras públicas pode acabar estimulando decisões precipitadas e expectativas irreais sobre os tratamentos hormonais. “Esse é hoje um dos maiores riscos da medicina hormonal no Brasil. Hormônio é medicação séria. Pular a etapa de investigação não é praticidade. É risco”, destaca.

Diante do aumento da procura por terapias hormonais, a orientação, segundo ela, é priorizar o entendimento do próprio organismo antes de escolher qualquer tratamento. “Em vez de perguntar ‘qual hormônio eu vou tomar?’, a pergunta certa é ‘o que está acontecendo no meu corpo?’.”

A especialista defende uma abordagem individualizada, baseada em investigação clínica, acompanhamento contínuo e medicina de precisão. “Longevidade feminina é o oposto de protocolo único”, conclui.

(Fotos : Arquivo Pessoal)

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